quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

35 anos

O centrinho de Epitácio, por Ewaldo Pereira: a casa que morávamos em 1974 está à esquerda, não tinha antena parabólica nem o muro alto.


Hoje faz 35 anos que saímos de Epitácio para morar na Baixada Santista. Achamos que iríamos morar em Santos, mas na verdade fomos para São Vicente, cidade vizinha, tão vizinha que o turista comum não percebe quando passa pelas duas divisas entre elas (na praia do José Menino e no monumento dos tambores , na zona noroeste. Fomos morar num sobradinho na rua Uberaba e depois mudamos para uma casa maior, na rua Rio de Janeiro, onde ficaríamos nos próximos dez anos, entre 1974 e 1984. Seria uma década revolucionária em nossa família, marcada por experiências incríveis e cheias de transformações. Nossa mãe teve essa intuição bem antes e não perdeu a chance quando surgiu a oportunidade. A vida em Epitácio havia atingido o limite para uma família grande e de poucos recursos: cinco filhos jovens com muitos sonhos, mas sem muitas perspectivas. A idéia inicial era irmos para São Paulo, como acontece com a maioria das famílias que passam pela mesma crise, mas optamos por uma cidade que não fosse tão grande como a Capital e não tão pequena como Epitácio. Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e Praia Grande formam uma grande região composta por cidades medianas. Era a escolha certa e o lugar perfeito.

Saímos na madrugada e chegamos no litoral perto do meio dia. Parte da nossa mudança foi levada numa camionete do Jorge Okada. No dia anterior, no feriado municipal de 27 de março de 1974, ficamos no jardim até quase meia noite nos despedindo dos amigos. Estávamos todos eufóricos e apreensivos. Esse sentimento permaneceu durante toda aquela semana de novidades.

Bem diferente do que é hoje, São Vicente era muito pequena e funcionava como cidade dormitório. Trabalhar, estudar, fazer compras, tudo era feito em Santos – no Gonzaga ou no centro velho, próximo à zona portuária. Andar nos coletivos era um excelente programa porque todos circulavam a grande Ilha de São Vicente, que inclui Santos e São Vicente. O circular 7 ia pelas praias em direção ao ferry-boate e o circular 8 fazia o sentido inverso. Alguns deles percorriam os canais principais (1 e 2) em direção à Vila Belmiro e ao túnel. Tudo era muito fascinante. Sempre escolhíamos o percurso mais longo, para aproveitar a paisagem. O cheiro de mar e da vegetação litorânea eram muito fortes e completamente diferente de tudo que o nosso olfato conhecia. Além dos pontos turísticos, nossa diversão preferida era ver a entrada dos navios na barra da Ponta da Praia. Navios enormes, de todas as nacionalidades. Também gostávamos muito das visitas aos vasos de guerra e submarinos, nacionais e estrangeiros. Num deles fomos visitar o jovem marujo epitaciano Salvador Miazaki. Tudo isso ia se acumulando no baú das nossas emoções e não víamos a hora de retornar para Epitácio e contarmos tudo em detalhes para os colegas. Isso aconteceu pela primeira vez no mês de julho – que na época estava bem frio. Uns parentes baianos da minha avó tinham sofrido a perda do filho mais velho ( que morava no Morro do São Bento, juntamente com dois irmãos) e fizeram essa viagem de volta com a gente. Levei na bagagem um vidro com água do mar, para mostrar para o Gilmar Saraiva. Em pouco tempo já havíamos adotado um sotaque santista (o abusivo e incorreto uso do “Tu” antes das frases –Tu vai, Tu foi, etc) , logo motivo de muito sarro e indignação dos colegas. Quando chegamos fomos logo procurar a turma no campinho de futebol, num terreno na rua Cuiabá, em frete a Serraria do Lopes. A manhã estava deliciosa, fria e ensolarada, e a maioria da garotada usava aquelas japonas de nylon “dupla face”. A irmã da minha avó Maria, mãe do rapaz morto em Santos, veio para morar em Epitácio. Elas não se viam há mais de 40 anos. Foram morar na chácara do meu avô, na Estrada Boiadeira Norte, próximo da rodovia marginal. Terminadas as férias, voltamos para o litoral, agora com outros olhares e outros projetos. Tudo o que aconteceu certamente daria um livro de memórias com muitos capítulos. Novas experiências, novos vizinhos, novos amigos. Momentos difíceis e coisas maravilhosas, inesquecíveis. De todas elas, a que marcou mais foi a ajuda espiritual – numa reunião de Evangelho - que recebemos de uma entidade feminina desencarnada em Epitácio. Velha amiga da família, ela nos deus conselhos e consolos preciosos nas horas incertas. Estávamos nos preparando para uma segunda etapa de mudanças. Na década seguinte – entre 1984 e 1990, fomos todos para São Paulo para complementar essa primeira fase de transformações.

São Vicente, sábado, 28 de março de 2009

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