quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Memória das minhas horas divertidas

Crepúsculo em Cubatão, por Bob Wolfenson


Acabei de ler “Memória de minhas putas tristes”, de Gabriel Garcia Marquez. Sei que já está fora de moda, mas ainda é um pequeno e tremendo livro. Li em apenas duas noites, logo após o jantar. O texto realmente é coisa de gênio e também sei que os narradores medíocres jamais conseguirão chegar próximo. É uma história perturbadora e impressionante. A trajetória do velho jornalista de 90 anos mexeu com as minhas lembranças e, aos 48 anos, também resolvi falar.

Tenho cinco irmãos e somos filhos de uma família de classe média baixa. Meus pais eram funcionários públicos federais, com salários modestos e muitas dificuldades para cobrir nossas despesas, como a maioria das famílias brasileiras.

A nossa mãe sempre se preocupou em nos educar para o trabalho. Dizia que, desde cedo, temos que acostumar o corpo para essa tarefa que iria nos acompanhar pelo resto de nossas vidas. Cinco meninos, quase rapazes, era uma situação muito preocupante e o principal obstáculo era a ociosidade. Quando morávamos no interior ela sonhava em nos levar para São Paulo. Na juventude ela tinha visitado parentes que viviam Capital e guardava boas lembranças das viagens e daquela grande cidade, sempre recordando com admiração o ritmo de vida que a s pessoas levavam numa metrópole. “Lá todo mundo trabalha, todo mundo levanta cedo!”, dizia ela, nos ensinando a afugentar a preguiça e o desânimo. Quando viemos para o litoral a luta dela continuou, pois os riscos de desvio aumentaram. Já éramos todos adolescentes e as tentações e necessidades começaram bater na porta. Não fomos morar em São Paulo, como queria minha mãe, porque meu pai não gostava da idéia e achava perigoso. Então, por um acordo entre eles, viemos para São Vicente. Ela se batia para nos ver fazendo alguma coisa de útil e continuava repetindo suas máximas sobre as virtudes do trabalho. De tanto ouvir aquilo ficava sempre olho em alguma oportunidade para produzir.

Meu primeiro emprego, aos 12 anos, foi numa quitanda, na rua Amador Bueno da Ribeira, no Gonzaguinha. Fui demitido. Não tinha nada para fazer e ficava comendo as bananas que não vendiam. Dali, por indicação de um irmão, fui trabalhar como entregador de remédios numa farmácia na Vila Valença chamada Tutankhamon. O dono era um prático muito bom e valorizava muito a minha educação. Ensinava como as coisas deveriam ser feitas, como tratar as pessoas e prezava muito a obediência. Também era muito alegre e tirador de sarro. Ficava indignado com as “madames” que vinham comprar fiado. Dizia ele: “Minha senhora, se fosse remédio... Mas, cosmético? Não!!!” Nesse ramo sempre tinha uma atividade curiosa: quando um cliente trazia alguma receita médica cuja letra do médico era incompreensível, era necessário percorrer as outras farmácias para decifrar a mensagem e também receber o desconto para revender o remédio. Nessas andanças a gente conhecia a cidade e muitas pessoas interessantes. Tinha um balconista da Drogaria Calunga, na rua Frei Gaspar, que conseguia decifrar as receitas pelo nome do médico.

Empregos não são eternos e já não eram naquela época. Por falta de experiência e muitas vagas disponíveis a gente mudava de emprego com muita facilidade. Cheguei a trabalhar também na informalidade: entregava folhetos de um curso de inglês em Santos, na porta dos clubes. Também fiz parte de uma equipe de jovens pintores de parede. Uma vez fomos pintar a casa de um delegado de polícia que tinha problemas com um filho ocioso. Ele descobriu que meu irmão era músico e dizia para o filho: “Tá vendo, o rapaz é pianista e tá aqui dando duro... E você aí ao nessa moleza...”.

E assim fui trabalhando num empreguinho aqui, noutro ali. Em 1982 consegui entrar num emprego mais sério. Era um cargo de auxiliar de escritório numa concessionária da Volkswagem. Quem conseguiu esse emprego foi o João Batista, amigo e vizinho quando morávamos em Epitácio, e que era encarregado do departamento pessoal. Eu fazia o mapa de serviços da oficina e outros pequenos serviços burocráticos. A firma era infestada de funcionários administrativos, coisa que hoje seria impossível. Naquela época não havia computadores e tudo era feito manualmente. Um fiscal da fábrica de São Bernardo vinha inspecionar mensalmente a revenda e checava todos os mapas. Era uma folha enorme contendo todos os dados de rotina da oficina. Cada serviço era padronizado por um código e um tempo de execução, marcado num relógio de ponto. Era um sistema alemão interessante, em série, que parecia um pronto-socorro: o carro entrava na loja, era atendido por um mecânico recepcionista que usava um jaleco branco até os joelhos. Com uma prancheta ele fazia a consulta e dava o diagnóstico. Se o cliente concordasse, ele preenchia uma ordem de serviço (OS) e chamava o chefe da oficina para providenciar a internação do veículo. Este escolhia um mecânico disponível ou mais adequado ao serviço, entregava a OS, que era levada até o guichê do nosso escritório para ser codificada. O mecânico tinha um tempo certo para fazer o serviço, incluindo também a solicitação de peças, na sessão ao lado. O sistema era curioso, porém era rígido e recusava quebra de paradigma. A idéia era trocar peças e aumentar a fatura. Conserto era outra coisa e não dava o lucro esperado. Tinha um mecânico japonês, bem baixinho, chamado Kimura que de vez em quando tentava quebrar o esquema e ajudar o cliente. Parecia o Charles Chaplin naquele filme Tempos Modernos. Ele tirava tudo do lugar e causava uma enorme confusão na ordem das coisas. O Kimura, que o Gabriel, chefe da sessão de peças, chamava de “Menininho”, não durou muito tempo. Para o alívio dos recepcionistas e do chefe da oficina, ele foi transferido para o DU, departamento de usados, que funcionava em outro endereço. Lá ele se deu bem porque tinha tempo de ficar mexendo no motor e fazendo outros reparos. Uma vez fomos assaltados. Era uma quadrilha profissional, com escopetas de cano curto enfiados naqueles antigos sacos de supermercado. Eles gritavam em castelhano: “Pagamento, Pagamento!!!”. Achavam que o dinheiro estava com a gente porque o escritório tinha caixa e guichê de vidro. Meu chefe tinha saído para comprar pão, coisa que nunca tinha feito. A menina do seguro, ficou pálida e quase desmaiou. Eu, muito nervoso, tinha vontade de rir e, pra disfarçar ficava mostrando as mãos vazias para os bandidos. Seu Jimy, um senhor falante que trabalhava no caixa, querendo agradar os meliantes tomou uma cutucada de espingarda na barriga e quase teve um infarto: “Pagamento, pagamento!!”, insistiam os assaltantes. Depois de muita luta eles perceberam que a coisa não estava rendendo nada e foram embora sem dar um tiro. Quando entraram no carro para a fuga, o pessoal da oficina começou a atirar pedra neles, mas não adiantou nada. Meu chefe chegou com o saco de pães e quis saber de tudo. O rapaz que trabalhava no relógio, muito irônico, disse: “Não aconteceu nada... Como diz o Dalmo, todo mundo ficou nervoso, mas isso é psicológico...”. O gerente da revenda, o seu Adonias, que era um alagoano, sujeitinho pequeno , eficiente e simpático ficou muito impressionado com a minha atitude e falava pra todo mundo ouvir: “Só tem um cara mais calmo do que eu nesse firma, só um. É o Dalmo!”. E então os colegas passaram a me chamar de “Dalmo, o calmo”. Este foi um dos melhores empregos que tive. Durou apenas um ano, ganhava pouco e a gente se divertia muito. Depois desse assalto, o Gabriel, que era chefe da sessão de peças, bonachão e palhaço que imitava todo mundo, entrava de surpresa em nosso escritório, com um saco de papel na cabeça, gritando: “La grana, la grana, la grana de La Desorganizacion!!!”. Nesse mesmo ano apareceu lá um gerente financeiro formado na FGV que tentou reestruturar toda a empresa. Era um financista paranóico e metido chamado Paulo. Tinha atitudes arrogantes e uma frase de efeito seguida de um gesto típico que logo caiu na boca dos humoristas: “Me traga o nome do funcionário relapso e este vai ser punido!!!”, batendo as costas de uma das mãos na palma da outra. Quando, então, aparecia alguém acidentado, com curativos e faixas, os sarristas diziam que o cara tinha sido devidamente "punido".

Depois fui trabalhar em Cubatão, numa empreiteira que atuava na área da Liquid Química, uma pequena, mas muito rica fábrica multinacional de derivados de petróleo: ácido benzóico conservante, plastificante, aldeído de perfumaria, etc. Esse trampo era barra pesada. Chegava em casa quase morto. A fábrica não era muito grande e funciona em três turnos semanais de oito horas: das 8:00 , das 16:00 e das 24:00. Entre esses turnos tínhamos folgas pequenas de 24 e uma grande de 72 horas. Minha função era de servente de operação. Cada turno tinha apenas quatro funcionários: o operador, o auxiliar de operação e dois serventes. Essa equipe era responsável por toda a produção, realizada por quatro reatores ( que são torres gigantescas, semelhantes a enormes panelas de pressão viradas de cabeça para baixo), três caldeiras, três grandes tanques de mistura, um sublimador (muito parecido com aquela máquina de fazer algodão doce), dois flakers, que são cilindros de resfriamento para fazer flocos de ácido. Tínhamos que cuidar também dos filtros, estoques de produtos de manipulação (permaganato, barrilha, filtros de papel), os equipamentos como bombas de água, compressores de ar, trocadores e separadores de líquidos, piscina de resfriamento, tanques de matéria-prima ( soda cáustica, tolueno, óleo diesel). Toda a produção era embalada em sacos de papel de 60 quilos, tambores de papelão de 20 quilos, tambores grandes de combustível e galões de PVC. Dependendo do turno, a jornada podia ser intensa, mediana ou eventualmente de faxina. Podíamos gastar água à vontade, que vinha de uma piscina reciclável. Quando o ralo da piscina entupia com algas, alguém tinha que tirar a roupa e mergulhar... Outro problema era o turno das 24, conhecido como “Cinderela”. Esse nos tirava o cinema, das festas, enfim, do melhor que a gente estava fazendo. Nessa época eu estava no primeiro ano da faculdade e perdia uma semana de aulas no mês. Correndo o risco de ser reprovado e sabendo que aquela carreira não tinha nada a ver comigo, decidi abandonar o emprego e mudar para São Paulo. Porém, três coisas marcantes aconteceram nesses dois anos em Cubatão: o incêndio da Vila Socó, em 1984, tragédia que tirou a vida de dezenas de favelados que moravam sobre canos de combustível da Refinaria da Petrobrás; o nosso encontro com uma névoa tóxica de amônia, vazada de uma daquelas fábricas de fertilizantes. Ficamos parados na rodovia Piaçaguera –Guarujá (atual Domênico Rangoni) e não conseguimos render o turno que sairia à meia-noite. Voltamos para casa para entrar somente no outro dia, às 16 horas. O interessante é que houve uma grande movimentação da defesa cilvil para retirar a população dos bairros industriais com mais de 200 ônibus que transportavam funcionários da Cosipa. Nada foi noticiado nos jornais. E finalmente o risco de desabamento da encosta da serra. Era uma época de terror: tinha acontecido também aquele acidente na Índia (Bohpal), numa fábrica que também tinha uma filial idêntica em Cubatão. A Cetesb estava começando a fiscalizar com mais rigor as indústrias que cometiam abusos ambientais, num tempo em que não se dava nenhuma importância para ecologia. Crianças nasciam sem cérebro na Vila Parisi e operários da coqueria na Cosipa eram contaminados com gás benzeno, altamente cancerígeno. Tudo isso aumentava o nosso medo em trabalhar em Cubatão, apesar dos bons salários.

Fui para São Paulo acompanhar minha família. Minha mãe finalmente tinha conseguido realizar o sonho dela: morar e trabalhar em São Paulo. Mesmo aposentada, ela se realizava ao sair de casa todos os dias para enfrentar a modernidade paulistana, que ela adora até hoje . Trabalhou como recepcionista no Shopping Iguatemy, na Faria Lima e dpois como gerente de um consócio odontológico, na avenida Brasil. Naquela época tinha emprego pra escolher. Um dia fui visitar os irmãos que trabalhavam numa loja de instrumentos musicais na Avenida Rebouças e lá fui aliciado para a temporada de festas. Também fiquei fascinado pela cidade, que visitava com frequência. Era dezembro de 1985 e logo estaríamos entrando no Plano Cruzado do governo José Sarney. Foram dez meses de inquietação e ansiedade de prosperar. E ficou só nisso. Depois viram outros planos e o fatídico confisco da poupança no governo Collor. Mas o povo continuava firme. Em São Paulo as coisas eram bem diferentes. Sempre foram. Realmente era uma cidade de muitas oportunidades. Fui estudar na PUC e lá entrei definitivamente na educação. Como estudante, dava aulas no Colégio e no Curso Objetivo. Também lecionava, como estagiário, num supletivo de funcionários da manutenção do prédio da Secretaria da Fazenda, na Avenida Rangel Pestana, através da FUNDAP. Estava mais fascinado ainda pelo ritmo da cidade e por tudo que estava acontecendo naquele época. Eram muitas mudanças importantes: o surgimento da informática, a redemocratização no Brasil, a queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria, as guerras na Iugoslávia e no Golfo, enfim, mil coisas aos mesmo tempo.

Em 1986 a Polícia Federal invadiu a PUC quando assistíamos ao filme "Je Vous salue, Marie", proibido pelo governo Sarney. A PUC tinha uma história de invasões e violências na época do Regime Militar. Os alunos fizeram eles de bobos jogando a fita de video do prédio velho para o prédio novo. Lá tinha uma molecada que adorava provocar e apanhar da polícia. Todos os anos eles levavam "bombas" de chocolate de presente para o Coronel Erasmo Dias (deputado), na Assembléia Legislativa. Erasmo havia invadido o campus em 1977, quando era secretário de segurança. Ele recebia cordialmente os alunos , mas sempre um deles falava um desaforo e ele, muito nervoso, começava a xingar e logo chamava a segurança. Permaneci no Objetivo por seis anos. Gostava de dar aulas e ganhava razoavelmente bem. Até que decidi virar empresário da educação privada. Resolvi montar uma escola. Um colega já tinha passado por essa experiência e depois de falir voltou a dar aulas. Eu consegui ficar mais seis anos como pequeno empresário, com muitas dificuldades. Acabei desistindo porque não tinha como avançar e ousar. Era necessário investir alto, correr riscos. Tinha juntado um patrimônio pequeno , mas acabei desistindo. Voltei a dar aulas. Fiquei um ano em Campo Grande. Depois fiz concurso e fui ser professor do Estado. Estudei, fiz outra graduação e depois pós-graduação, com título e tese de mestrado. Hoje, com a ajuda de Deus, continuo dando aulas, com dois empregos, sempre procurando um terceiro.


1981 -Maurão, Mia, Dadau e Bill na balsa do canal de Bertioga. O Grupo Manvantara tinha ido tocar em Barra do Saí.

Um comentário:

Ricardo Melo disse...

Olá. Quer dize que você é testemunha da invasão da PUC em 86? O que me incomoda sobre esse evento é que ele tammbém tem lá a sua simbologia e importância, mas está sendo esquecido. E o melhor desse evento é que os alunos enganaram e botaram a polícia pra correr. Se interessar, aí vai um artigo que escrevi sobre o evento. No final eu deixo o meu e-mail, caso você queira fazer contato. Só peço para não publicar o e-mail, ok?

http://www.olharanalitico.com.br/2010/04/quando-estudantes-da-puc-encararam.html

weg@mxb.com.br

Um abraço.