sábado, 24 de março de 2012

Noitadas juninas no Beira


O espírito demolidor do passado e construtor do futuro continua no seu ritmo impiedoso, deixando em meio a olhares tristes e saudosos, ao mesmo tempo conformados, o rastro de escombros e entulhos na cidade.

Dessa vez foi a sede esportiva do E.C. Beira Mar, na rua Benjamin Constant, esquina com a XV de Novembro. Em apenas algumas horas uma poderosa máquina botou abaixo o galpão e instalações do clube que durante quatro décadas acolheu a população vicentina para os seus grandes eventos sociais. Dizem que ali vai ser construído um hotel de griffe.

O “Beira”, como era chamado nos anos 70 e 80 e até hoje é conhecido pelo mesmo apelido, era um dos pontos mais freqüentados pelos jovens das classes populares nessas duas décadas. O destaque, nesse endereço, era a Festa Junina, tradição brasileira que na região sudeste é marcada pelo inverno e deliciosas noites frias e estreladas. Epoca de namoros quentes e acasalamentos.

Nos anos 70, talvez por causa do temor imposto pelo Regime Militar, o momento mais aguardado da festa junina era a “batida” feita rotineiramente pela PE do Exército, em busca de soldados “foragidos” do quartel do então 2ºBC ou do Forte Itaipu. Os “recos”, à paisana, com suas extravagantes calças de tergal Boca de Sino e sapatos Cavalo de Aço, eram facilmente reconhecidos entre a maioria “Black-Power”, pelo corte de cabelo típico e logo surpreendidos pelos soldados de capacete branco. A PE, aparecia repentinamente com um jipe sem capotas, seguido por um caminhão de carroceria coberta de lona. Geralmente era comanda por um sargento com cara de durão e que, com o tempo, tornou-se atração das noitadas do Beira, que não ia além da onze horas.

Os jovens mais ousados, de estilo hippie, adoravam usar uniformes militares, combinados com jeans desbotado. Certa vez, meu irmão mais velho, o Mia, juntamente com seu colega Claudio (Mandrix), na época alunos do Grupão, conseguiram duas jaquetas verde-oliva. Deram umas voltas na cidade se exibindo, mas logo foram advertidos sobre o risco que corriam. Para disfarçar, tiraram as tarjas de identificação do soldado e transformaram a cor das jaquetas em água fervente com Tintol vermelho. Aproveitaram a mesma água para tingir umas camisetas amarradas com barbante, que após o tingimento revelava a conhecida estampa psicodélica. Para disfarçar ainda mais, trocavam os botões originais por botões metálicos dourados; também pregavam fitas coloridas,do tipo peruana, e que de longe pareciam pequenas medalhas coloridas. As jaquetas ficaram cor de vinho e ainda assim faziam um grande sucesso naquelas noites inesquecíveis.

Bons tempos!

Um comentário:

Anônimo disse...

Eu passei minha juventude fequentando as domingueiras do "Beira". Era inicio dos anos 90, quando tocava-se muito "miami" (latin freestyle music) e black music. Muitos casamentos iniciaram ali. Não era perfeito, mas era nosso "point".

Saudades.