sexta-feira, 1 de março de 2013

A tradição e a criatividade vicentinas


Grupo Manvantara em reportagem de A Tribuna sobre a 1ª Mostra de Arte de Santos
 
Vendo hoje o grande sucesso da Encenação da história de São Vicente, que na verdade é história de toda a região, ficamos pensando como essa cidade, sempre com tão poucos recursos, consegue realizar um evento tão criativo e grandioso.  Lembramos então que São Vicente possui uma antiga tradição artística e que sempre foi um celeiro de talentos culturais.  Nós mesmos tínhamos vivido uma experiência que confirma essa tradição.

Há 30 anos um grupo de jovens vicentinos, que incluía alguns amigos santistas, fazia uma pequena revolução cultural na Baixada Santista. Entre nós havia músicos, artistas plásticos, atores, fotógrafos, poetas, escritores, dançarinos e videomakers, então uma modalidade artística estimulada pela explosão do videocassete.

Um ano antes havíamos criado o projeto Gente Nova, circuito universitário musical que percorria as faculdades de Santos, apresentando-se também em espaços alternativos, muito comuns naquele tempo. Peito Rasgado, Manvantara, Copos & Bocas eram alguns desses grupos. A repercussão foi tão boa que decidimos realizar uma coisa mais ousada. Era a 1ª Mostra de Arte de Santos. O projeto surgiu numa reunião informal feita num apartamento de um casal amigo onde nos encontrávamos para falar de arte e cultura.  O apartamento era enorme, mágico e inspirador. No mesmo prédio, o primeiro a ser construído na praia do Itararé, havia morado por alguns anos o escritor e filósofo italiano Pietro Ubaldi, célebre autor de A Grande Síntese (lido e elogiado por Albert Einstein). Certamente teríamos boas intuições naquele inesquecível ano de 1983.

A ideia era fazer um festival que pudesse reunir num espaço o maior número possível de artistas e expressões culturais. A maioria dos presentes atuava como voluntários do recém-fundado posto do CVV (Centro de Valorização da Vida) e então decidimos que a renda desse evento seria destinado para essa ONG, que nessa época  funcionava numa das salas do Centro de Cultura de Santos. O local escolhido não poderia ser outro: o Centro de Cultura e o Teatro Municipal juntos eram espaços perfeitos. Durante três dias tivemos a presença de um grande público para prestigiar os trabalhos de praticamente todos os segmentos artísticos de destaque em Santos, São Vicente, Cubatão e Guarujá. Quase todos os artistas hoje conhecidos na Baixada Santista, incluindo o grande fotógrafo Araquém Alcântara, deixaram na Mostra de Arte a sua marca e sua contribuição. No ano seguinte, repetimos a dose, de realização e de sucesso.

É preciso recordar também (lembrar com o coração) que o apoio que recebemos das autoridades culturais foi fundamental para que a criatividade dos realizadores e artistas entrassem em cena. De outra forma, seria apenas um sonho.
Publicado originalmente no Almanaque da UNIBR, fevereiro de 2013

Nenhum comentário: