domingo, 18 de maio de 2014

Passeios e cinemas do Gonzaga


O bairro do Gonzaga na década de 1980 
 
Na metade da década de 1970, haviam apenas três cinemas em São Vicente: o Cine  Petrópolis (na avenida Antonio Emerick, lado do Cascatinha), o Cinemar (na rua Benjamim Constant, em frente ao Clube Tumiarú) e o Cine Jangada, um pouco mais sofisticado (na rua Martim Afonso, no centro). Nesse último vimos, entre 1975 e 1976, o lançamento de Dona Flor e seus Dois Maridos, Tubarão e também  a peça O Santo Inquérito, de Dias Gomes, em monólogo com Regina Duarte. Um dos meus meus colegas de escola e praia - o Chico - era filho do gerente do Petrópolis e do Jangada, nos quais sempre tínhamos entrada franca.  Essas eram as únicas opções de diversão noturna em São Vicente, o que nos levava a buscar as atrações de Santos, especificamente no Gonzaga, antigo bairro balneário de casarões de milionários e hotéis de luxo. Alí era, nos anos 70, o verdadeiro esplendor de consumo e footing para jovens e adultos, local sempre muito movimentado e de muitas novidades, vitrines, luminosos, barulho de carros e motos durante a noite e na madrugada. Nas calçadas, largas e sempre limpas, sempre havia oferta de artesanato hippie e pinturas em quadros, de todos os estilos.

Cortado pela centenária avenida Ana Costa, o Gonzaga tinha como destaque a praça Independência  em torno da qual se concentrava inúmeros estabelecimentos: restaurantes especializados, rodízios de pizza, lanchonetes e casas de sucos e vitaminas, sorveterias, farmácias,  grande lojas de sapatos,  roupas e acessórios; galerias com muitas lojinhas da moda e de discos, boutiques de luxo, duas livrarias muitos frequentadas (Martins Fontes e Siciliano) e principalmente os cinemas, cuja frequência era altíssima nos finais de semana.

Durante o dia, como hoje, o Gonzaga funcionava como um centro de serviços (consultórios, bancos, escritórios); era também o bairro dos solteiros, pois havia muitos prédios com apartamentos pequenos e de temporada. Eu mesmo morei sozinho durante um ano (1985) na rua Pereira Barreto, em frente ao atual Shopping e Hotel Miramar. Fazia minhas refeições, pasmem, numa loja da Drogaria São Paulo, na rua Floriano Peixoto (um precursora das lojas de conveniência), que também era restaurante. 

 Durante a noite o bairro sofria uma transformação espetacular tornando-se uma vitrine frequentada por um multidão de pederestres, sempre muito bem vestidos. De todas as atividades comerciais, a que mais representava esse espírito da diversão e do passeio noturno no Gonzaga era o cinema, que servia, por exemplo, para demarcar o tempo de permanência dos que buscavam o bairro nos fins-de-semana.  As sessões tanto poderiam ser o início, o meio quanto o fim da jornada de lazer e diversões, dependendo das características e das intenções das centenas pessoas que ali passavam.

As salas de cinema do Gonzaga variavam de tamanho e gosto pelos filmes ofertados: as maiores para as películas comerciais e a menores para os filmes de arte. Muitos deles faziam sessões de pré-estreia à meia noite de sexta-feira. Mas o ponto alto eram as noites de sábado, quando o bairro era invadido pelas multidões desde o período da manhã e tarde, para fazer compras; e à noite, para os passeios de costume. Contando da praia do Gonzaga em direção ao centro, existiam na avenida Ana Costa os seguintes cinemas: Atlântico I e II (Hoje lojas C&A, Mc Donald e Americanas, próximos ao bulevard da rua Othon Feliciano); Iporanga I e II (salas grandes) e Iporanga III (sala de arte), vizinhos do Clube Sírio-Libanês, todos demolidos para dar lugar ao atual shopping denominado Pátio Iporanga. Na sequência havia o Cine Roxy (talvez o maior de todos, até hoje em funcionamento e com rede nos shoppings do litoral); e por último o Cine Indaiá, conjugado ao hotel do mesmo nome, próximo ao Colégio São José. Na rua paralela, atrás do Indaiá, tinha o pequeno Cine Alhambra, também só para exibição de películas de arte e voltado para um público seleto. Mesmo com essas diferenças de público e salas, não havia distinção de preços nos ingressos para filmes comerciais e de arte. 

Na década de 1980 Santos também teve a fase dos cine-clubes, porém de uma forma diferente. Como a cidade sempre teve e ainda conservava boa parte das suas salas de cinema, o Cine Clube de Santos funcionava alternadamente em diversos pontos, como espaço locado em horários ociosos ou de baixa frequência. A ideia era do conhecido cinéfilo Maurice Legeard, que exibia seus filmes preferidos sobretudo no Iporanga 3, Alhambra e mais tarde no Cine Indaiá. Marcando o fim de um ciclo da antiga e imensa paixão dos santistas pelo cinema, Maurice faleceu em 1997, quando sua obra cultural circulante e seu gigantesco acervo de milhares de filmes, equipamentos e impressos já permaneciam guadados na sede da famosa Cinemateca de Santos. A cinemateca funcionava inicialmente num sobrado no Gonzaga e anos mais tarde foi incorporada como patrimônio gerido pela Secreria de Cultura da cidade.


Outro destaque dessa década foi o Cine Posto 4, espaço criado para otimizar o uso dos antigos e abandonados postos de salvamento nas praias. O Posto 4 do Gonzaga tornou-se na segunda metade dos anos 80, juntamente com a Concha Acústica do Canal 1, importantes espaços de cultura alternativa na cidade. O nosso grupo musical marcou presença na Concha por duas vezes, nos finais de tarde dos verões santistas: uma com show instrumental e outra acompanhando um cantor brega chamado Tony Greyson, que havia nos procurado em São Vicente para darmos uma força nos arranjos dele. Por incrível que pareça, esse show virou um assunto cult nas faculdades e barzinhos porque o jazzista e complicadíssimo Manvantara tinha dado uma demonstração de humildade e solidariedade ao se apresentar com um artista simples e - como nós- sem nenhuma chance de sucesso na mídia. Quase todas as “canções próprias” desse cantor tinha estrofes com a frase “Meu benzinho...”. Um amigo nosso e fã persistente do Manvantara comentou: “Nunca vi vocês tão sérios e compenetrados”!

 Ainda no Gonzaga, na avenida da praia, existia o Cinema 1 (mais tarde transformado em local de eventos e e depois bufê) e no início da avenida Conselheiro Nébias o Cine Caiçara, que, já em decadência comercial, era utilizado para eventos alternativos. No Caiçara assistimos aos shows de Rita Lee e Tutti Fruti (Babilônia) e depois Hermeto Pascoal e Grupo. Na avenida Pedro Lessa (Macuco) havia mais um cinema e no centro da cidade tinham mais duas ou três salas antigas.

Nesse período, entre 1978 e 1985, foi demolido o antigo Parque Balneário, que deu lugar ao primeiro shopping do Gonzaga e de Santos, mantendo o mesmo nome. No local também foram construídos um novo hotel e dois condomínios de apartamentos de luxo, empreendimentos que, apesar da criticada destruição do incalculável patrimônio histórico e arquitetônico do prédio antigo, deu um novo impulso ao centro comercial do Gonzaga, talvez livrando-o do perigo da decadência.

Mesmo com a mudança de costumes e o crescimento da violência urbana, ainda hoje o Gonzaga é um bairro agitado, talvez porque tenha shoppings, bons estabelecimentos de consumo e sobretudo pela alta valorização e verticalização imobiliária. Porém, não tem o mesmo brilho das antigas décadas, exatamente por causa da liberdade e tanquilidade de circulação que havia nauqlea época, bem como o interesse pelo cinema e diversidade na oferta de fantasias em “rolos”. Era numa época em não havia a possibilidade de ver filmes em casa. Restou um pouco do hábito do passeio, que ainda não foi substituído por nenhuma invenção tecnólogica, por enquanto.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ia quando criança com meus amigos na domingueira do Cinemar, uma fila imensa, não me esqueço que estava assistindo Tarzan numa copa do mundo lá quando o Brasil foi campeão nos 70, apareceu na tela Brasil Campeão em letras brancas que rolavam e foi uma gritaria geral, ficava lotado, o que mais gostava era as caras bolinhas de chocolate com licor marca Pan da lojinha, que ficava só na vontade. O Jangada ia todos os domingos e foi lá que pré adolescente assistí na segunda sessão de adultos meu primeiro filme impróprio e lançamento O grande Gatsby, fiquei lá no fundo na mudança de público e o lanterninha me viu mas não me mandou embora. E o Alhambra, que legal, nem me lembrava que ficava lá na rua de trás ao lado do Rubinho o salão das ricas daquela época.

Jarbas Carvalho disse...

Como vicentino da Vila Melo, hoje moro em Cravinhos (região de Ribeirão Preto, confirmo tudo o que foi acima relatado, sem mudar uma vírgula, pois vivenciei e participei "in loco" tudo que foi dito!